Algumas reflexões inspiradas por fatos e situações "simples" do cotidiano.


Sentir-se feliz dá trabalho

Felicidade e labuta aparentemente são palavras que não combinam no imaginário da sociedade atual tal qual ela tem difundido o conceito de felicidade. Mas felicidade, ou melhor, sentir-se bem, não se conquista sem labuta, ao contrário do hedonismo atual, que incentiva o prazer pelo prazer, sem conquista, sem labuta, sem dor ou sofrimento, e sem a existência do outro. Será que isso é felicidade mesmo ou serão apenas "caprichos" satisfeitos que por fim resultam em vazio? Ou uma busca desenfreada por sentir-se bem, mas como não se sabe o que é sentir nem se sabe o que buscar, tenta-se de tudo?

Furor Curandis

Há algum tempo eu ouvi de uma analista, de quem gosto muito que Freud já nos alertava sobre o furor curandis, a excessiva necessidade do analista curar seu paciente de seus sintomas sem dar ouvidos ao que ele quer. Muitas vezes esse é o desejo do analista, eliminar os sintomas, mas será que é também do paciente? Ontem, em um encontro psi falamos bastante sobre isso, não só no âmbito de nossos pacientes como também da relação cotidiana com as pessoas. Primeiro vou estabelecer o setting psicológico para a partir disso chegar ao cotidiano.

Depressão

É muito sofrimento e um   sofrimento   solitário e de difícil  compreensão, tanto para o próprio que sofre como para os que estão a sua volta. Tive uma paciente, com um quadro depressivo moderado, que me descrevia pensamentos e sensações muito angustiantes, mas que não compartilhava com ninguém já que os achava tão estranhos que tinha receio de ouvir-se ou mesmo de ver o semblante confuso para quem contasse. É um isolamento característico no deprimido, ele sente e pensa "coisas" que parecem impossíveis de serem ditas e por isso sofre calado e perdido.

O simples no cotidiano

Não é sobre o simples doméstico, que está mais complicado que atinga caderneta do seu Joaquim da padaria, é sobre o desuso e a descrença das conversas simples, a troca de ideias sem nenhum carater científico ou sobre "dicas" aprendidas por tentativa e erro. Sobre o juntar dois mais dois, o dia a dia, o cotidiano que tanto nos ensina, mas que teimamos em buscar respostas nas pesquisas e não na troca de experiências. Por que isso? Chego a triste conclusão que estamos cada vez mais solitários e não trocamos com o outro nossas experiências, recitamos verbetes intelectuais e fórmulas de sucesso, palavras jargões, frases de efeito, mas e o que  a nossa experiência do dia a dia, onde fica?

A construção de nossa história

Era uma vez . . . . . Cuidei de um paciente que sofria muito com os conflitos vivenciados com seus pais. A maneira como foi educado, a maneira como via que conduziam as própria vidas, a maneira como não se sentia aceito e visto, e outras tantas coisas. Certo dia, em consulta, depois de alguns acontecimentos extremados "resolveu" que o "problema" não eram os pais, mas ele mesmo, justificando tal afirmativa através da análise que fez da história de de vida de seus pais e de como ele, ainda bebê, era difícil. Concluiu que a culpa era dele.

Diagnósticos precoces: rótulos infantis

Em uma das aulas de psicologia abordei o tema transtorno bipolar com um filme. Depois que o filme acabou os alunos fizeram várias perguntas, uma delas foi a respeito da idade em que os sintomas podem surgir.  É uma pergunta muito difícil de ser respondida porque em crianças e adolescentes os diagnósticos psicopatológicos têm que ser muito, mas muito minuciosos, pois a criança pode apresentar comportamentos e emoções que são parte daquela fase de desenvolvimento e não necessariamente sintomas de alguma patologia. 

A expressão do não falado

Outro dia conversando com uma colega sobre os pacientes internados em psiquiatria eu discorria sobre a dificuldade em lidar com quadros de extrema desorganização psíquica, nos quais delírios e alucinações estão fortemente presentes e o trabalho psicológico ficava limitado e dependente da atuação do medicamento. Além dessa espera havia a possibilidade do primeiro remédio prescrito não ser o que o paciente melhor responde-se e a medicação ser trocada.